5 de jun de 2012

Outono

Linda Tassitch

Não soube dizer quanto tempo estivera ali, na sala, confortavelmente sentada no sofá, pensando em tudo o que acontecera. Deixara-se levar pelas recordações, num mergulho profundo para dentro de si mesma. Nada sentia, apenas via como numa tela a sucessão de fatos, um após o outro, encadeando-se numa seqüência inexorável. Finita.

Com esforço saiu da modorra espreguiçando-se languidamente. Ainda como que num transe, olhou ao seu redor: tudo arrumado, em ordem, nada fora do lugar... “Irritante”, pensou. Levantou-se e começou a andar a esmo, olhando os objetos da decoração. Não havia um estilo próprio, mas a falta dele, em si mesma, era um estilo – e gostava disso, como gostava! Era um sopro de vida, de movimento a agitar a mesmice e a calmaria... Deu-se conta de que escutava uma música agradável, um solo de piano delicado, e balançou-se lentamente ao som, respirando o ar, sentindo-o percorrer todo o seu corpo. Sorriu para si mesma, feliz.

Chegou à janela e ficou um tempo observando a chuva fininha que caía o dia todo. A terra úmida, fértil e generosa. “Por demais!” – pensou. As ervas daninhas já cresciam viçosas no pequeno jardim e teria um trabalho cansativo, mas relaxante a fazer, assim que o sol voltasse a brilhar. As roseiras estavam lindas! Botões de todas as cores desabrochavam e ela lembrou-se de que aquela não era a época correta para isso. Estranho... nunca houvera nada muito temporal – a associação foi imediata. Uma leve tristeza assomou seu coração. Voltou-se para dentro da sala novamente, tentando não deixar que este sentimento se instalasse. Não! Voltou a dançar, erguendo os braços bem para o alto, rodopiando entre os espaços vazios, os olhos fechados.

Parou em frente a um dos seus quadros preferidos. Olhá-lo era agradável e lembrou-se de que fora o primeiro que havia adquirido. Fora em uma tarde ensolarada, na cidade. Vira-o exposto de qualquer jeito numa pequena vidraçaria de bairro, empoeirado, porém irradiando uma luz única. Entrou na loja acanhada, e num impulso o levou para casa. Agora ele ali estava, em um lugar de destaque na parede. Olhou-o demoradamente. Era um casario colonial – uma cidadezinha daquelas no fim do mundo, com a igrejinha dominando a cena, e a luz! A luz do sol se pondo, dourando o cenário.

Pensou que bem que poderia sair em férias, sem destino definido, visitando todas as vilas e aldeias pelo caminho. Mas... Isso teria de ficar para depois – quando, não sabia.

Um sentimento de solidão a invadiu, de súbito. Olhou para a janela e viu que o sol finalmente tentava sair de trás das nuvens naquele final de tarde. Abriu a porta e saiu... A luz dourava tudo, tudo tornando vivo e pulsante. Não pensou em mais nada, e mergulhou no turbilhão de luzes e cores, fazendo-se ela própria parte integrante daquele espetáculo. Respirou profundamente o ar puro. A vida continuava.

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