3 de jun de 2012

Economia: O que está havendo com o Brasil?

Irineu Tolentino

Dada a situação econômica pela qual  estamos passando, o cenário me convidou a fazer uma análise sobre o esfriamento brasileiro.

Aparentemente, eu estava meio distante dos assuntos econômicos. Mas é só aparentemente. Eu estou acompanhando tudo. É que, no que diz respeito ao Brasil, há temas siameses à Economia que me detiveram por alguns instantes (esclareço mais adiante).
 
Há pouco tempo, havia uma euforia muito grande com os BRICs e, de repente, as coisas foram esfriando, esfriando... Por quê?
Você encontrará por aí uma infinidade de analistas dizendo o que pensam sobre o  assunto com toda a autoridade possível. Nessas horas, lembro-me de Peter Lynch: "Ninguém pode prever as taxas de juros, a direção futura da economia e o mercado de ações. Esqueça todas essas previsões e se concentre no que realmente está acontecendo com as companhias nas quais você investiu” (Vocês me verão repetir muito essa frase neste blog, mas há uma razão para isso).


Realmente, prever o futuro é difícil em qualquer área, porém, na econômica, é mais ainda. As "leis de mercado" são fortemente influenciadas por interesses humanos, muitos deles escusos e privados, é o underground da Economia. Mas Lynch não está dizendo que não devemos ouvir os analistas e operadores do mercado, ao contrário. Em todas as áreas, é mais seguro acompanhar àqueles que estudam sobre o assunto e têm responsabilidade profissional, mesmo que, de vez em quando, errem.

Jim O'Neill, economista do Goldman Sachs e pai do BRIC, disse que "As previsões para o crescimento brasileiro eram muito elevadas, principalmente depois da alta de 7,5% do PIB em 2010, e ajustes eram necessários. Mas agora há análises que estão exagerando problemas e riscos para o Brasil".

Para Richard Lapper (Financial Times) "No mercado, o clima é de que a festa brasileira acabou (...). É como se de repente alguns analistas tivessem descoberto que o Brasil tem problemas".

Nouriel Roubini (o doutor Apocalipse), diz que é necessário haver um "choque de realidade" no Brasil.

Neil Shearing (consultoria Capital Economics, em Londres), decepcionado, diz que "Havia uma bolha de entusiasmo pelo Brasil - e agora ela estourou".

Todos esses pareceres foram dados à BBC Brasil. Logo, não precisei de muito trabalho para compilá-los, embora eles tenham feito eco em vários outros jornais e revistas especializados; da Europa às Américas e Ásia.

Mas, é preciso ressaltar, que, embora sejam pessoas respeitabilíssimas na área, a análise que fizeram é bastante superficial, principalmente pelo fato de que estão considerando apenas a conjuntura econômica e, mesmo assim, vista de fora. 
 
É certo que o Brasil teve o pior desempenho dos países do BRICS (o "S" da expressão é a África do Sul, que foi incluída posteriormente), aliás, até pior do que países que estão fora do  BRICS.
 
No primeiro trimestre deste ano, só cresceu 0,2% em relação ao último T11. Míseros 0,2%... Será difícil atingir a meta de Mantega de 4% ou 4,5% em 2012, não é?

Hoje, a não ser Mantega, ninguém se arrisca a dizer que o Brasil passará dos 3%.  Porém, eu, um Zé Ninguém da Economia, vou apoiar o ponto de vista dele, e não é só porque gosto do Mantega. 

Vale a pena lembrar que, em 2008, quando a bolsa brasileira atingiu uma região próxima dos 29.000 pontos (quem passou por isso há de se lembrar), havia uma só voz entre os analistas: o fim do mundo está próximo. Era muito comum ouvirmos expressões como "Grande Depressão", "1929", "Fim do Capitalismo", "Nova Era", "Colapso Econômico", "Convulsão Social" e, até, o que não tem nada a ver com o assunto, "As Profecias Maias".

Em 2009, a bolsa recuperou praticamente todas as perdas. Em 2010, Warren Buffett, o guru dos investidores de todo o mundo - com toda a humildade que lhe é peculiar - dirigiu-se aos acionistas da Berkshire Hathaway, estufou o peito na carta anual, e disse: Errei! 

Sim! Estávamos vendo o maior investidor de todos os tempos, o Guru de Omaha, dizer com todas as letras que ele havia errado (eu me lembro muito bem disso). Errou em relação ao momento em que deveria entrar e sair do mercado e errou em relação ao nosso país, dizendo "Infelizmente, o Brasil esteve fora do meu radar".    

Ufa! Embora eu tivesse amargado um prejuízo imenso em 2008 (estando certo de que havia feito a maior besteira de todos os tempos ao aventurar-me na Bolsa) sem contar com qualquer amparo técnico para me consolar, sentindo-me culpado por não ter previsto o crash, veio o mestre e disse que ele havia errado... Confesso que senti um certo alívio e um pouco menos idiota com as declarações de Buffett.

Até os mestres erram. Eles são humanos. Eu sabia disso, mas queria ouvir alguém admitir, já que, publicamente, analistas e investidores sempre acertam (é incrível!). Assim, veio ninguém menos que Buffett dizer perante todos que errou. Até nisso ele é um exemplo.

Depois foi alegria geral. Ao final de 2009, todas as perdas recuperadas e, ainda por cima, com lucros expressivos.

Porém, em 2010, o Ibovespa estagnou, em 2011, começou a preocupar, em 2012, apesar de um pequeno ensaio de alta, é o que vocês estão vendo agora: derretendo.

Qual é a diferença entre 2012 e 2008? Iremos novamente aos 29.000 pontos?

Pois é, ninguém gosta de dar notícia ruim (acho que nem o Roubini), mas o fato é que notícias ruins virão pela frente, principalmente de fora (eu já disse isso aqui).

Assim, por ora, estou esperando algo em torno dos 40.000 pontos. E, imagino, essa queda não será só no Brasil, mas no mundo inteiro. E não é papo de vendido. Estou comprado, mas em empresas com P/VP muito baixos que não justificam a venda (não jogo na bolsa, tento invistir). E também não vivo só de bolsa.

Como bem disse a Zélia Cardoso de Mello (aquela que mexeu na sua poupança), "a tragédia continua sendo o principal  produto de exportação da Grécia".  E é verdade. A Grécia está muito mal das pernas e tem assustado o mundo. Apesar de ser um paisinho (no bom sentido da palavra), que possui, praticamente, a mesma população que a cidade de São Paulo, ela está situada na Zona do Euro e contém uma doença grave (um endividamento impagável). Se ela está assim e contraiu esse problema dentro da ZE, como estão os demais países? Você sabe? Eu não sei!

Há uma falta de clareza e de confiança na Europa. Sabemos, por exemplo, que Portugal, Itália, Irlanda e Espanha estão muito ruins também, mas não sabemos ao certo como estão a França e a Alemanha. Do ponto de vista estritamente econômico, isso, por si só, está assustando o mundo.

Não pense que acabou. Acrescente a esse caldeirão o Japão também com sérios problemas e, recentemente, a China declarando que está preocupada com a sua própria desaceleração econômica...Um pouco de tensão bélica entre Israel, Irã, Coréia do Norte, EUA...
 
Voltemos ao Brasil.

Só a Vale exporta para a China 40% da sua produção, ou melhor, exportava. O Brasil é um grande exportador de commodities, cujos preços estão bastante elevados. O desaquecimento da economia global, seguramente, implicará desaquecimento da brasileira (o agronegócio que tem nos ajudado bastante já está sentindo os efeitos desse inverno/inferno econômico globalizado).

E por que é que o Mantega pode estar certo em relação ao crescimento do PIB brasileiro? Porque o Brasil tem um forte mercado interno, tem grandes reservas e uma demanda ainda reprimida (apesar dos estímulos de 2009). A redução dos juros e do IPI, recentemente implementada, estimulará essa demanda. Isso é artificial? É! Mas não tem jeito, o governo precisava fazer isso e já está provado que dá resultados (2008/2009). Acontece que, como esses estímulos não estão contabilizados no primeiro trimestre deste ano seus efeitos surgirão nos próximos.

Muito provavelmente, haverá mais corte de juros e mais redução do IPI (ainda tem a linha branca, móveis, construção, que podem ser exploradas). Contudo, seria uma irresponsabilidade não considerarmos o fato de que, apesar da grande demanda interna que temos, ela é menor que a de 2009, quando muitas pessoas se meteram em longos financiamentos de carros, casas e apartamentos, comprometendo parte significativa da renda. Isso exigirá do Governo um esforço maior para reduzir seu apetite tributário.

Até porque, para piorar (vem agora o tema siamês à Economia que eu havia dito acima), estamos passando por uma importante crise de idoneidade no meio político, a qual tem prejudicado a credibilidade do Brasil junto aos investidores internos e externos. O caso Demóstenes/Cachoeira é muito  maior que o previsto. Estão sendo citados como envolvidos membros do Ministério Público, Governadores, Senadores, Ministro do STF, Prefeitos, Empresários,... O Lula, como presidente do PT (partido do Governo), teve até que entrar em ação para não deixar a coisa desestabilizar o país. Ele está tentando...

A Dilma não poderia fazer esse trabalho porque ela é a Presidente (ou Presidenta, como queiram). Ademais, ela está muito bem na fita como a Presidente/Presidenta (troço chato) que implementou uma operação faxina significativa, elevando sua avaliação junto ao povo. 

Agora, parem e pensem: Se a conjuntura  econômica por si só está assustando os investidores, o que dirá se acrescentarmos essa crise político-administrativa-institucional-sadomasoquista-brasileira?

Os  esquemas são tão grandes que, para se ter uma idéia, foi ventilado pela imprensa que o advogado Márcio Thomaz Bastos recebeu de Carlinhos Cachoeira R$ 15.000.000,00 (quinze milhões de reais), a título de honorários, apenas para fazer a sua defesa. Ora, se está faltando dinheiro no mundo (até mesmo nas economias ricas), como é que aqui, um único homem, gasta toda essa quantia apenas para custear sua defesa?

O Brasil estava  acostumado (mal acostumado na verdade) à idéia de que seus escândalos não traziam implicações à Economia. Não traziam porque estava fora do radar do mundo dos negócios. Agora, não. Com a recente crise global e o subdesenvolvimento inexplicável para um país onde se plantando tudo dá, o mundo passou a olhar para nós nos últimos anos.  

Mas, diante dos últimos acontecimentos, constatou-se que somos muito atrapalhados. É escândalo para todos os lados. Há problemas com as obras da Copa, empresas miúdas recebem fermento do governo e tornam-se gigantes do setor sem qualquer explicação plausível (Delta), um Ministro do STF  contamina a instituição passando a idéia de insegurança jurídica, escândalos políticos...

Para os investidores estrangeiros somos um país de areia movediça. Você colocaria seu dinheiro aqui, sem um mínimo de segurança? É assim que estão nos vendo lá de fora.

Eu sei que tudo isso é apenas mais uma página ruim (ou melhor, um capítulo inteiro) que será superado, mas o mundo não não sabe!

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