7 de mai de 2012

O sorriso do zumbi

Linda Tassitch 


Preto José foi quem me deu a dica. Surpreendi-o sentado sobre o parapeito da janela, respirando o ar fresco da noite e fazendo uma careta horrorosa – a boca aberta, os olhos arregalados, o pelo todo eriçado, pensei mesmo que iria partir para um ataque. Assustei-me, deveras, mas logo me tranquilizei, pois lembrei que este comportamento demonstra a reação dos bichanos quando sentem algum odor extremamente agradável. Ficam como que hipnotizados, tentando reter o aroma o maior tempo possível. Quando se convive com gatos, aprende-se o modo de ser felino. Todavia, seu ato me induziu a pensar.


Estranhos tempos... vivemos o que se convencionou chamar de pós-modernidade, ou pós-modernismo, embora quase ninguém ainda saiba exatamente o que seja isso. À primeira vista assemelha-se a uma grande orgia entre manifestações artísticas, temas, tendências, modismos, modos de viver, tecnologias... qualquer um pode fazer o que quiser, da maneira que desejar, pois há espaço para todos. Em teoria. Pelo menos aparentemente.

Muito se fala da solidão a que é relegado o ser humano pós-moderno, de seus problemas psicológicos, de síndromes variadas, e os culpados por isso são inúmeros – os divãs pelo mundo afora atestam este fato – mas o problema vem de ainda mais longe, talvez até mesmo desde o advento da razão. E soluções infindáveis vêm sendo encontradas e adotadas ao longo da História da Humanidade.

Bem, nesta confusão toda me chama a atenção uma destas panaceias: a autoajuda. Não é de hoje que se publicam livros e mais livros sobre o tema, recheados de receitas para se viver bem e melhor. Nada contra a autoajuda em si própria, mas... ela usurpou um espaço enorme na mídia e... em nossos e-mails! Quem já não está cansado de receber aquelas apresentações de Power Point, com imagens lindas e músicas relaxantes, cheias de frases lhe dizendo o que fazer para curar seus problemas existenciais? Eu estou cansadíssima e explico o porquê: não quero ficar com aquela mesma cara de Preto José. Não mesmo!

Antigamente, quando alguém precisava de ajuda procurava um livro, um amigo, e resolvia o problema (ou não). Mas era a pessoa quem procurava! Agora, indistintamente lá vem a mensagem enviada bondosamente. Sim, a intenção é sempre boa. Mas de onde vem a certeza de que nos será útil? De que precisamos especificamente daquelas palavras? Onde estão aquelas conversas longas, desabafos e até risadas, onde está aquela grande interação entre seres que se gostam e se admiram? Algumas receitinhas chegam mesmo a nos dizer que se não as seguirmos, não seremos aceitos pelas demais pessoas! Ou seja, não estaremos enquadrados no modelito “politicamente correto” vigente: as pessoas devem ser alegres, alto astral, desencanadas, bem sucedidas... e o que é dito nas entrelinhas é que ninguém tem paciência com ninguém. Se um pobre ser humano tem problemas, que os resolva sozinho ou procure um psiquiatra. Se estiver “pra baixo”, não incomode os demais!

Mas também tem um lado engraçado, e é aqui que agradeço ao meu gato pelo novo saber que me proporcionou. Suponhamos que todos nós passássemos a agir de acordo com as sugestões fornecidas pelos mecanismos de autoajuda. A primeira consequência seria a criação de algo parecido com uma única “personalidade coletiva”. Todos estando felizes e satisfeitos, sem problemas e sem nada para perturbar ou para instigar soluções criativas, a segunda consequência seria um grupo de seres alegres, mas vazios.

Estaríamos todos parados, inebriados com o perfume do nada... zumbis. Tragicômico, não é?

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