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27 de jul. de 2012

Uma nova forma de ver o Irã

Irineu Tolentino

O Irã não se resume no Ahmadinejad e nem na política belicista. Há intolerância e malucos por lá, como há em todo lugar; mas também há beleza, humanidade e sentimentos nobres, comuns aos homens de bem, independentemente de território e religião.

Para fugir um pouco da visão ocidentalizada e distorcida do país, o belíssimo filme "A cor do Paraíso" (disponível no link abaixo), mostra algo além de guerras e petróleo. Dá para assistir "on line". Vale a pena!

 

Há uma série de filmes iranianos muito boa. Um outro exemplo é o "The Children of Heaven". Não tenho o link para o filme completo, mas uma pesquisa na web o levará até ele.Veja o trailer abaixo:


3 de jul. de 2012

Stop the War! #foraMMA #foraUFC


Irineu Tolentino

Posso parecer meio romântico, ingênuo, pueril... Sei disso. Sei também que, por mais que  tentamos construir uma cultura de paz, isso muitas vezes não é possível dada a natureza que rege o comportamento dos seres vivos de maneira geral.

Animais matam, plantas matam, seres humanos matam.  Conflitos acontecem a todo instante e fazem parte do ciclo natural da vida; compreendo isso. Mas, se em algumas situações eles podem ser evitados, ao menos nessas, eles devem ser. Já basta ao mundo as dores inevitáveis.

Após as guerras, alguns soldados voltam para casa fazendo aflorar emoções incontíveis nas pessoas e animais que os amam, as quais adormeciam nos corações entristecidos que já haviam se acostumado com as idéias de morte e ausência. Outros não podem fazê-lo. Seus parentes, amigos (e até animais de estimação), seguiram suas vidas acostumados à perda que haviam sedimentado em seus corações, sem saberem das mortes e sem terem certeza de nada, apenas como medida de defesa dos seus sentimentos.

Será que as guerras prematuras e evitáveis valem a pena? E o MMA, UFC ou quaisquer outros conflitos dispensáveis?




30 de jun. de 2012

Poema sem nome 2



E da minha janela
vejo a noite escura,
vestida de espessa neblina.
Ocultos em seu bojo,
sussurros e mistérios...
E a vida latente,
insistente,
que explode em cores
ao nascer do sol...

22 de jun. de 2012

Entrevista: Jorge Amado e os livros, o Brasil, a política...



Uma longa, histórica e bela entrevista com um dos maiores escritores brasileiros: Jorge Amado.

Aliás, ele foi mais do que um escritor, foi uma testemunha da História contemporânea e co-autor dos princípios liberais-democráticos na Constituinte de 1946.

Vale a pena ler de novo!




Do UOL

Aqui, o mais famoso escritor brasileiro depõe sobre literatura (e aponta seus mestres), política (recorda seus passado comunista), comenta a atual situação do País, pede justiça social, lembra seus amigos com carinho e fala de um bem que considera imprescindível: a liberdade.



"Eu tenho a impressão de que, 
às vezes, as pessoas, inclusive os jornalistas, não se dão conta de que o país avançou. Ficam com uma imagem muito atrasada, muito anterior do Brasil"


O que é ser escritor num país onde pouco se lê? Eu vou começar discordando. Eu acho que não é verdade. Começa-se a ler bastante, no Brasil. Há uma coisa muito curiosa. Eu tenho a impressão de que, às vezes, as pessoas, inclusive os jornalistas, não se dão conta de que o País avançou. Ficam com uma imagem muito atrasada, muito anterior do Brasil. Houve um momento que realmente não se lia no Brasil. Quando estreei o meu primeiro livro, há 57 anos, em setembro de 1931, uma edição de mil exemplares já era uma boa edição, dois mil já era excelente, três mil então... nem se fala... Quando José Olympio fez cinco mil exemplares de meu livro Jubiabá e de Banguê de José Lins do Rego, foi aquela coisa... o mundo vinha abaixo... cinco mil exemplares! Compreende? Nunca se tinha feito aquilo, pelo menos até aquele momento.

E como é que o sr. se sente sendo o escritor mais lido no Brasil? Eu me sinto mal. Porque acho que deviam ter cinqüenta escritores mais lidos no Brasil. Eu não sei se sou o escritor mais lido no Brasil, talvez. Há algum tempo, nós éramos dois: Érico Veríssimo e eu próprio. Deixa te dizer uma coisa, neste particular. Eu me sinto muito satisfeito de que hoje no Brasil existam já vários escritores que vivem da sua profissão de escritor. Houve um momento em que nós éramos dois no Brasil a viver dos nossos livros. O grande mestre da literatura brasileira que se chamou Érico Veríssimo e eu próprio.
 
Como é que o sr. vê a produção literária brasileira nos dias de hoje, na década de 80? Você fala da produção sob o ponto de vista editorial ou literário?

Sob o ponto de vista literário. Do ponto de vista literário acho que há uma coisa extremamente positiva. Há uma grande diversificação na literatura brasileira... esta diversificação sempre existiu, faz com que você tome autores contemporâneos e... deixa primeiro te dar um exemplo... veja por exemplo, José de Alencar e Machado de Assis. Você vê que é a mesma grande literatura brasileira, mas cada um com a sua matriz própria.

21 de jun. de 2012

Poema sem nome


É preciso 
não apenas criar a personagem.
Como um ator, 
passar a sê-la,
transmutar-se nela,
isso é preciso.

Viver a sua vida 
e sentir suas emoções mais íntimas,
conhecer seus segredos mais obscuros.

E aí, então, 
decifrados seus enigmas,
voltar a si 
e desfrutar da sua companhia,
pois que agora está pronta 
e existe por si só,
concretamente, 
um ser distinto dos demais,
na imaginação de cada leitor.

18 de jun. de 2012

Sigmund

– Corro o mais que posso. Não sei para onde, estou perdida em meio a uma floresta densa e escura. À minha frente, vejo apenas a parede verde das folhagens, dos caules das árvores cobertos pelo musgo úmido, em muitos tons. Das folhas pingam gotas férteis de pólen, mas estranhamente estou seca, nem mesmo o suor do cansaço molha minha roupa. Não sei o que acontece, nem como, mas ao me atirar em direção à parede viva, esta se abre como que num passe de mágica, para se fechar logo mais atrás de mim, de minha desabalada carreira, meus pés mal tocam o chão, flutuando sobre o tapete de relva e folhas caídas.
 

17 de jun. de 2012

Língua de manteiga

Crédito da Foto: Victor Tolentino

Marta Matui

No filme La Délicatesse um dos personagens vê uma linda mulher e pensa: se ela pedir um suco de damasco eu me aproximo e falo com ela.

Ora, a moça pede: "Une jus d'abricot, sil vou plait". E eu pensei, qualquer pessoa falaria com qualquer pessoa mediante a expressão "jus d'abricot".

Experimente falar "jus d'abricot" sem ficar irresistível, impossível. Mas fale direito, jiuudabrrrrrrricô. Viu? Qualquer troglodita fica interessante se falar isso.

O francês é parecido com aquele gato de botas do Shrek, aquele que arregala um olhão e faz aquela cara de me ame.

Me parece possível conseguir tudo se falado em francês. E aí lembrei do episódio do Laboratório de Dexter quando ele aprende a falar Omelette du Fromage. Vira herói (embora eu ache que o certo é falar omelette au fromage).

O francês é a língua mais linda que existe, mas me escapa, como um porco besuntado de manteiga. Un porc recouverte de beurre. 

Assim é o francês pour moi.

14 de jun. de 2012

Vivendo e Aprendendo


Cara, eu nasci em abril de 1964. Então, quando eu nasci já era ditadura militar. Logo, pra nós crianças, era normal cantar o hino à bandeira em pé no pátio do colégio com a mão no coração. Pra nós era assim, nunca tivemos outra vida.

Passei 18 anos da minha vida sem ver nenhuma eleição para presidente. Os caras falavam "agora é o Garrastazu Médice", e ok. A gente voltava pra pular mãe da rua e nem tchum. "Agora é o Ernesto Geisel", e ok, voltávamos pra rua pra jogar bets (aqui em São Paulo chama taco).

Meu pai tinha um adesivo colado no carro "Brasil, ame-o ou deixe-o", que para mim fazia sentido. Se não amasse o Brasil deveria mesmo mudar de país. O adesivo do posto Shell dizia isso. O adesivo era legal, quem enchesse o tanque ganhava. A gente também ganhava um perdigãozinho amarelo de chaveiro se comprasse os produtos Perdigão, tinha um que era mulher porque tinha sapatinho de salto alto. Ganhávamos muitos brindes, bonequinhos das marcas Brasilinos. Também vinha anel dentro dos sacos de pipoca doce.

Foi só quando eu fiz 19 anos e já trabalhava da rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, que me liguei que eu deveria poder votar. Caiu uma aspirina gigante na minha cabeça e eu despertei para a vida.

E hoje, se você olhar uma foto do movimento das Diretas Já pode saber de uma coisa: uma dessas cabecinhas é minha. Lá estive exigindo o que hoje parece ser tão normal e natural: votar para Presidente. E foi muito legal.

8 de jun. de 2012

O Capitalismo no Teatro

 
Quanto digo que os  artistas estão dormindo, tenho lá alguma razão (Cadê os Artistas? e Pô, Ferreira Gullar!).
 
Por aqui, teatro, música, cinema, pintura, escultura e literatura passam ao largo da crise global, tanto econômica quanto politicamente. É uma pena, pois ficam esquecidos aqueles que, como eu, gostam de economia, política e artes. E a Arte deixa de cumprir um dos seus papéis, que é nos convidar à reflexão.
 
Contudo, em Portugal, o Jornal de Negócios divulgou uma peça que eu gostaria muito de assistir. Aliás, muitos de nós. 

Na nota abaixo, Susana Moreira Marques, do JN, dá o tom:
 

"Quando as luzes se apagam e 
outras se acendem sobre o palco, 
o mundo pode começar de novo"
 

"Às vezes, é preciso destruir para recomeçar e é em chamas que acaba "O Dia do Santo", de John Whiting, peça do pós-guerra britânico, representada pela primeira vez em Portugal.

Em cena até dia 10, no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, é a mais recente encenação do Teatro Experimental do Porto (TEP) e de Gonçalo Amorim. O ator e encenador andava à procura de uma peça que mostrasse até onde pode chegar o capitalismo. Uma peça onde também se percebesse que ainda que tudo esteja em chamas, o teatro pode ajudar-nos a sair dos escombros."

Se estiver em Portugal, não esqueça de conferir!  O Gonçalo Amorim merece o crédito!


5 de jun. de 2012

Outono

Linda Tassitch

Não soube dizer quanto tempo estivera ali, na sala, confortavelmente sentada no sofá, pensando em tudo o que acontecera. Deixara-se levar pelas recordações, num mergulho profundo para dentro de si mesma. Nada sentia, apenas via como numa tela a sucessão de fatos, um após o outro, encadeando-se numa seqüência inexorável. Finita.

Com esforço saiu da modorra espreguiçando-se languidamente. Ainda como que num transe, olhou ao seu redor: tudo arrumado, em ordem, nada fora do lugar... “Irritante”, pensou. Levantou-se e começou a andar a esmo, olhando os objetos da decoração. Não havia um estilo próprio, mas a falta dele, em si mesma, era um estilo – e gostava disso, como gostava! Era um sopro de vida, de movimento a agitar a mesmice e a calmaria... Deu-se conta de que escutava uma música agradável, um solo de piano delicado, e balançou-se lentamente ao som, respirando o ar, sentindo-o percorrer todo o seu corpo. Sorriu para si mesma, feliz.

Chegou à janela e ficou um tempo observando a chuva fininha que caía o dia todo. A terra úmida, fértil e generosa. “Por demais!” – pensou. As ervas daninhas já cresciam viçosas no pequeno jardim e teria um trabalho cansativo, mas relaxante a fazer, assim que o sol voltasse a brilhar. As roseiras estavam lindas! Botões de todas as cores desabrochavam e ela lembrou-se de que aquela não era a época correta para isso. Estranho... nunca houvera nada muito temporal – a associação foi imediata. Uma leve tristeza assomou seu coração. Voltou-se para dentro da sala novamente, tentando não deixar que este sentimento se instalasse. Não! Voltou a dançar, erguendo os braços bem para o alto, rodopiando entre os espaços vazios, os olhos fechados.

Parou em frente a um dos seus quadros preferidos. Olhá-lo era agradável e lembrou-se de que fora o primeiro que havia adquirido. Fora em uma tarde ensolarada, na cidade. Vira-o exposto de qualquer jeito numa pequena vidraçaria de bairro, empoeirado, porém irradiando uma luz única. Entrou na loja acanhada, e num impulso o levou para casa. Agora ele ali estava, em um lugar de destaque na parede. Olhou-o demoradamente. Era um casario colonial – uma cidadezinha daquelas no fim do mundo, com a igrejinha dominando a cena, e a luz! A luz do sol se pondo, dourando o cenário.

Pensou que bem que poderia sair em férias, sem destino definido, visitando todas as vilas e aldeias pelo caminho. Mas... Isso teria de ficar para depois – quando, não sabia.

Um sentimento de solidão a invadiu, de súbito. Olhou para a janela e viu que o sol finalmente tentava sair de trás das nuvens naquele final de tarde. Abriu a porta e saiu... A luz dourava tudo, tudo tornando vivo e pulsante. Não pensou em mais nada, e mergulhou no turbilhão de luzes e cores, fazendo-se ela própria parte integrante daquele espetáculo. Respirou profundamente o ar puro. A vida continuava.

2 de jun. de 2012

Ferreira Gullar e a Poesia

Irineu Tolentino

É claro que a ironia de Ferreira Gullar sobre o valor da poesia - referida no post anterior - não me fez entendê-lo como um poeta sem valor. Ele está aí, há décadas, fazendo Literatura. É e deve ser respeitado por isso. Tem credenciais para tanto.

No primeiro vídeo abaixo, ele fala da poesia. Mas, nesse particular, com todo o respeito (talvez até por questão de gosto), ele não me impressiona. Admiro-o mais pelo que está fora dela: seu pensamento, sua personalidade, sua clareza, e, sobretudo, sua sinceridade.

No segundo vídeo, ele passa pela religião e pela filosofia de forma magistralmente humana e sincera. Não entro no mérito se ele está certo ou errado. Gosto da forma como ele vê esses temas e o próprio ser humano.

Poesia à parte - embora ele a tenha elegido como sua forma preferida de se comunicar com o mundo - eu o classifico mais como um intelectual. Um ser humano autêntico, inteligente e genuíno.







1 de jun. de 2012

Pô, Ferreira Gullar!


Irineu Tolentino

Numa ironia discreta, Ferreira Gullar disse que "poesia não tem valor no mercado". Será?

Eu tenho minhas dúvidas. Acho que  todo tipo de arte tem seu lugar no mundo. Da pintura à escultura, da música à literatura (incluída aí a poesia)... Não estou, de forma alguma, desmerecendo Gullar. Não é nada disso, até porque, gosto muito dele!

A arte está é divorciada do mundo, principalmente, dos acontecimentos políticos e transformações sociais. Falta sintonia. Músicas como as de Renato Russo e Cazuza não surgem mais. O que surge hoje passará junto com as dancinhas de Neymar.

Aqui no Em Tese, eu já havia comentado sobre isso em Cadê os artistas? Tive que concluir que eles estão dormindo. É por isso que a arte, de maneira geral, não tem valor no mercado. Ela não nos provoca mais!

Veja, por exemplo, Gregório de Matos Guerra, poeta baiano (1636-1695), alcunhado de "Boca do Inferno"... Ele definiu sua "cidade" poeticamente, do jeito dele. Até hoje Gregório de Matos é lido, relido e estudado...

"De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder".

Por que, hoje, ninguém quer escrever, pintar, esculpir ou musicar Brasília? Cadê os artistas?

20 de mai. de 2012

A Diferença entre o Bárbaro e o Civilizado


Leandro Karnal é desses caras que conseguem dizer, de forma simples, coisas complexas.  

Na aula abaixo, você pode conferir um pouco do seu ponto de vista (bem fundamentado, diga-se de passagem), que, embora na superfície trate das diferenças entre o bárbaro e o civilizado, no fundo, convida-nos à reflexão sobre a forma como tratamos o outro e construímos nossos conceitos e preconceitos em relação às diferenças, que não são tão diferentes assim. 

Confira!

15 de mai. de 2012

A Primavera, Vivaldi

Irineu Tolentino

Algumas músicas simplesmente falam por si mesmas. 

Parece até que usaram seus autores (sem querer retirar-lhes o mérito) para virem ao mundo como obra acabada.

As Quatro Estações de Vivaldi estão nesse grupo de músicas que eu elegi, por meu próprio gosto, como sublimes. Delas, a minha preferida é a Primavera. 

Gosto de ouvi-la, ainda que seja no Outono.

Vai dizer que você não se emociona? 


12 de mai. de 2012

Dia das Mães

Linda Tassitch

Canção de Ninar

Dia das Mães. Mais uma data daquelas para o comércio faturar. Nada contra, mas confesso que tenho verdadeira ojeriza por todos esses “dias disso e dias daquilo”. As pessoas enlouquecem em sua sanha consumista. Neste caso: “– Já comprou presente para a sua mãe?” “– E para a sua mulher? Já comprou? Para sua avó? Sua tia? Sua filha recém transformada nesse ser sublime? Como não? Oh! Como você ousa esquecer?” E aí vem uma enxurrada de argumentos para convencer a alma desgarrada da importância de presentear todas as mães do mundo.
 
Sinto-me uma verdadeira herege nessas datas, pronta para ser lançada às fogueiras da Santa Inquisição...

Mas sinceramente prefiro, na simbologia que esse dia em especial suscita (o que é inevitável), me lembrar de minha mãe cantando para me ninar. Ah! Não era qualquer cantiga, não! Além da linda voz que possuía, ela me privilegiava com músicas cujas melodias e letras continuam ainda hoje emocionando corações sensíveis. Quase que a ouço, agora:
 
Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora,
E conta tua mágoa logo toda para mim.
Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora,
Que não vai embora...”


Meu coração, não sei por quê,
Bate feliz, quando te vê!
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo...
 
Bem... quantas coisas aprendi com ela neste simples ato, que ficaram gravadas na memória, sem esforço. E quando aprendi a falar, ela me ensinou a cantar, junto com ela, e talvez sem se dar conta, ela ainda me ensinou a apreciar a beleza e a poesia das coisas simples da vida. Em todos os dias.

Felicidades a todas as mães.

 


10 de mai. de 2012

Um dia você aprende


Para quebrar um pouco o gelo deste blog "frio e calculista", resolvi convidá-lo(a) a um deleite.

Até porque, como ensinado por Leonardo Boff, os valores que sustentam a vida humana não passam pela economia; se passassem, a felicidade e o amor estariam à venda nos bancos.

Foi por essa razão, que, hoje, convidei William Shakespeare para participar conosco, o qual se "manifestou" através do texto homônimo a este post (em uma "tradução modernizada", por Veronica A. Shoffstall), cujo texto situa-se entre os mais divulgados na internet. Ele toca as pessoas como nenhum outro, perfura a alma humana como um cirurgião ao corpo de um paciente.

Tão belas e profundas são as palavras desse, digamos, Dramaturgo-Psicólogo, conhecedor íntimo da alma humana, que, vez por outra, torna-se obrigatório visitá-lo...

Talvez assim, da mesma forma que o dramaturgo inglês, de tanto ser surrado pela vida e enfrentar os infortúnios que ela colocou no seu caminho... um dia você aprende...




  Um dia você aprende...

9 de mai. de 2012

Você sabe com quem está falando?

Mário Sérgio Cortella é um  filósofo, professor e palestrante brasileiro que esbanja simpatia, simplicidade e sabedoria.

Ele é dos mais  requisitados no Brasil por ser muito comum promover palestras memoráveis. Quem as assiste sai melhor dos eventos, mais enriquecido, e (para não dizer um pouco menos ignorante, o que Sócrates compreenderia muito bem), um pouco mais sábio. 

Abaixo você pode conferir uma dessas palestras onde ele nos mostra quem verdadeiramente nós somos.

Confira!



7 de mai. de 2012

O sorriso do zumbi

Linda Tassitch 


Preto José foi quem me deu a dica. Surpreendi-o sentado sobre o parapeito da janela, respirando o ar fresco da noite e fazendo uma careta horrorosa – a boca aberta, os olhos arregalados, o pelo todo eriçado, pensei mesmo que iria partir para um ataque. Assustei-me, deveras, mas logo me tranquilizei, pois lembrei que este comportamento demonstra a reação dos bichanos quando sentem algum odor extremamente agradável. Ficam como que hipnotizados, tentando reter o aroma o maior tempo possível. Quando se convive com gatos, aprende-se o modo de ser felino. Todavia, seu ato me induziu a pensar.

19 de abr. de 2012

Mudanças...

www.nanihumor.com
Hoje acordei com novos cheiros, novos ruídos, nova paisagem - abro as janelas do pequeno apartamento e vejo o verde das árvores, suas flores, o azul brilhante do céu. Inspiro o ar puro e sinto-me verdadeiramente  feliz.  Consegui. É que a luta foi árdua, pois por durante duas décadas eu já tentara vender minha antiga casa, pelo menos umas quatro vezes, sem sucesso. Agora deu certo e aqui estou, maravilhada com qualquer mínimo detalhe das novas coisas que me rodeiam.

Deixei praticamente tudo para trás. Não trouxe quase nada dos meus antigos objetos, móveis, eletrodomésticos, nada! Comprei tudo novo. Vida nova. Bem, quase. Meus dois gatos vieram comigo. Meus quadros preferidos, meus livros, meus... minha identidade, quem eu sou. Isso não dá para deixar para trás. Nem eu, nem os gatos. Nem meus amigos!

O fato é que estou renovada e percebo minha vida agora como uma nova página, em branco, aguardando o registro dos novos planos, novas atividades, novos aprendizados... e aqui estou! Em um novo espaço! Solta, sobrevoando a página de cima para baixo, de um lado para o outro.

Mudar é sempre uma atitude bem-vinda, notadamente quando é para melhor. Mas a principal mudança é aquela que acontece no interior de cada um de nós, através das diversas fases da vida. É perceber que nada é estático, parado, que tudo está em movimento vibrante e motivador. É obter uma nova compreensão do mundo e dar-se o direito de parar por vários instantes durante o dia para debruçar-se em uma varanda apenas para olhar o verde do gramado, sem pensar em mais nada. 

Ter a coragem de mudar, seja de um lugar para outro, seja de convicções, de postura, traz em si o verdadeiro poder, aquele de libertar-se de velhas amarras, de se abrir para o novo e continuar a escrever a própria história.

3 de abr. de 2012

Crônica de uma separação


"Dignidade é coisa que nenhum homem tira da gente"

Por Andréa Pachá

Separações são sempre difíceis. Mesmo quando a decisão é construída pelos dois, a sensação é de fracasso, culpa, tristeza profunda. E o pior é que não tem bula ou manual de instruções.

Tudo parece tão fácil — nos filmes. Depois da tela escura, amanhece. Cada qual na sua casa, com a roupa de cama no armário, a louça na cozinha e os livros displicentemente arrumados nas estantes. Ninguém faz as malas, ninguém discute o significado dos objetos colecionados durante quase 30 anos. Não se reflete sobre o melhor momento de empacotar a vida ou apartar o paletó do vestido.

Costumam ser rápidas as audiências consensuais de separação. Raramente uma reconciliação, mas com freqüência um choro e sempre a dor da ferida ainda não cicatrizada.

Fernando e Teresa não se pareciam com nenhum dos milhares de casais que acostumei ver naquela situação. Mal conseguiam se entreolhar. Não tinham filhos. Não precisavam de pensão. O patrimônio do casal seria dividido em partes iguais e ela voltaria a usar o nome de solteira.

Antes que eu formulasse a burocrática pergunta sobre a possibilidade de reconciliação — especialmente burocrática naquele caso, considerando a nítida distância entre os dois —, entra na sala uma senhora. Era muito idosa, cabelos brancos arrumados, chiquérrima e com um buquê de rosas colombianas vermelhas na mão.

— Desculpa, doutora. É minha mãe – informou Teresa.
— Posso aguardar aqui dentro, excelência? – perguntou a senhora com as rosas.
— Se vocês não se incomodarem...

Tanto Teresa quanto Fernando assentiram. Altiva, ela sentou e, tranqüila, aguardou o encerramento do ato.

O acordo foi ratificado e o tempo não passava. Nunca demorou tanto uma impressão de texto. Parecia a eternidade. O silêncio, ali, era sólido, machucava. Eu não sabia o que podia fazer, ao menos, para amenizar o visível constrangimento do casal e, óbvio, o meu.

Ele era professor universitário e ela pesquisadora. Provoquei alguma pauta política do dia e a discussão sobre os arquivos da ditadura veio à tona. Qualquer coisa era mais suportável que aquele silêncio.

Soube, então, que se conheceram nos anos 60, no movimento estudantil, e foi um amor de idéias e liberdade. Companheiros da resistência, não podia haver qualquer evento capaz de destruir a solidez dos projetos e sonhos. Dividiam as almas e se imaginavam juntos até o fim.
Ela nunca engravidou e em exames preparatórios para um tratamento de infertilidade, quase aos 40 anos, veio o diagnóstico de câncer de mama.

Ele a acompanhou na cirurgia e na quimioterapia. Poucos meses depois do retorno do hospital, a notícia de uma gravidez não programada de outra mulher, com quem Fernando tivera um relacionamento eventual e passageiro, caiu como uma bomba no já detonado quarteirão doméstico.
Mesmo fragilizada pela doença, a racionalidade prevaleceu. E se teve impulsos de descontrole ou vitimização, e se pretendeu quebrar tudo, Teresa se conteve. O que os fazia parceiros era muito mais do que um sentimento de posse. Maduros, éticos, leais e politicamente corretos, enfrentariam a situação como adultos que eram e continuariam no mesmo barco.

Atenta, eu assistia hipnotizada e admirada à história contada pelos dois.

Alguns anos depois, um novo tumor. Desta vez, Fernando não suportou o encargo, a responsabilidade. Não era falta de compreensão ou solidariedade. Era falta de vontade de prosseguir. Conversaram. De novo, sem drama, sem tragédia e sem bolero. Procuraram o advogado e ali estavam.

Assinados os papeis e prontos para sair, a senhora das rosas levanta e numa voz firme, pede a palavra. Informei que a audiência havia terminado e, caso Fernando quisesse, podia sair, mas, autoritária, ela o impediu.

— Só preciso dizer uma coisa, Fernando. E gostaria que você ouvisse.
Ele parou respeitosamente e permaneceu de pé.
Ela prosseguiu:

— No dia do casamento de vocês, meu marido, ainda vivo, te entregou o nosso bem mais precioso. Hoje, eu fiz questão de vir aqui, com flores, para receber de volta a melhor mulher que você podia ter encontrado na sua vida. Não te culpo por nada. Só lamento que você não tenha conseguido chegar nessa idade com a sabedoria, a maturidade e a generosidade que se espera de um homem. Sempre te acolhi como um filho e nunca imaginei que uma pessoa de caráter pudesse abandonar qualquer ser humano no momento mais frágil da sua vida. Isso, rapaz, é papel de moleque. A vida não serviu para que você se transformasse numa pessoa melhor. Nessas horas, dói mais pra mim, a revelação do seu egoísmo e falta de compaixão.
Nenhuma reação. Nem de Teresa, nem de Fernando.

— Acabei. Pode ir. Seja feliz, coisa que eu duvido que você consiga.

Ainda da porta, ele ouviu o que faltava:

— Você, minha filha, me dá um abraço apertado. Essas flores são para que você nunca esqueça da mulher íntegra que é e que muito me orgulha. Não temos, no sangue, a capacidade de armazenar ressentimentos. Você vai ser muito feliz porque merece. Dignidade é coisa que homem nenhum tira da gente.

Fernando deixou a sala. Levantei e pedi um abraço da senhorinha. Racional, como Teresa, eu não podia ter feito aquele discurso, principalmente porque não sou juíza para julgar desejos, impulsos e limitações alheios.

Não consegui, entretanto, esconder a satisfação de presenciar um acerto de contas, vindo de uma autoridade que só a idade e a dignidade conferem. Aquela mãe não tinha nenhum compromisso, quer com a racionalidade, quer com a legalidade. Podia falar o que quisesse naquelas circunstâncias.

Partiram, mãe e filha, de braços dados, com o buquê de rosas vermelhas, no cortejo para a vida.

*Esta crônica faz parte de uma experiência literária da juíza Andréa Pachá que, junto com outros textos, deverá em breve se transformar em livro.

Andréa Pachá é juíza de Direito em Petrópolis (RJ) e ex-conselheira do Conselho Nacional de Justiça.
Revista Consultor Jurídico, 2 de abril de 2012