7 de jun. de 2012

Um bom empresário fora-da-lei

"Fui multado por pagar escola 
para os meus funcionários"

Irineu Tolentino

Sob o título "Sou um fora-da-lei", a revista Exame publicou uma importante matéria em 1996, relatando uma situação ocorrida com o empresário Silvino Geremia, da empresa HIGRA, de São Leopoldo/RS, onde, de forma lapidar, ele criticou a sanha tributária do Estado, a incongruência da Lei e o descaso com a Educação. Tudo num tacada só!

A lei criticada na época foi modificada. Falta ainda, a questão tributária e educacional. O Estado deve reduzir a carga tributária e oferecer uma educação decente (como também, saúde, segurança, justiça, assistência social...). Dada a importância do assunto, não há como não republicar a acurada análise do Sr. Silvino. Confira:

6 de jun. de 2012

Brasil: Um país de areia movediça


Irineu Tolentino

Quem acompanha o Em Tese, deve ter lido o post Economia: O que está havendo com o Brasil?

Ali, tracei um paralelo entre a corrupção e a Economia, especialmente do Brasil. Sustentei que as análises de Peter Lynch, Jim O'Neill, Richard Lapper, Nouriel Roubini e Neil Shearing, em relação ao esfriamento da economia brasileira, eram superficiais, pois baseavam-se apenas em premissas técnico-econômicas.

É claro que, de forma alguma, reduzi a importância desses analistas. Apenas discordei da conclusão a que chegaram, porque entendo que os problemas pelos quais estamos passando não têm fundo estritamente econômico. A perda de atratividade internacional em relação ao Brasil, nesta fase atual de reorganização do mundo, decorre da corrupção bastante acentuada, a qual não conseguimos controlar, punir e nem manter em níveis civilizados.

Arrisquei-me até a afirmar que "Para os investidores estrangeiros somos um país de areia movediça". Isso não é um exagero e nem uma conclusão precipitada, já que se percebe claramente uma influência negativa no desempenho econômico brasileiro por conta dos níveis elevados de corrupção e fraqueza das instituições.

Hoje, a organização Transparência Internacional, ao examinar a Europa (cuja crise também já atrelei à corrupção), declarou no relatório Corruption a pan-European problem: new report,  que:

“Fighting corruption needs to come from the top and that is where Europe fails the test.”
"No country is immune to corruption and the damaging effects it has for citizens and society. Across Europe – a new report from Transparency International reveals – corruption is undermining confidence in national institutions and contributing to a sustained economic crisis."

Numa tradução livre:

" O combate à corrupção tem de vir de cima e é aí que a Europa não passar no teste . "
"Nenhum país está imune à corrupção e os efeitos nocivos que ele tem para os cidadãos e da sociedade. Em toda a Europa - um novo relatório da Transparência Internacional revela - a corrupção está minando a confiança nas instituições nacionais e contribuindo para uma crise econômica sustentada
."
 
Você pode ler mais sobre o relatório aqui.
 
Bom, em síntese, não dá mais para conviveremos com esquemas do tipo Mensalão, Demóstenes e Cachoeira. Isso já não incomoda apenas aos brasileiros. Os empresários  que financiam esses esquemas devem repensar suas políticas de lobby. Ainda que não descobertas, essas irrigações de capital que estão fazendo para os corruptos está causando sérios problemas ao (permitam-me a associação) "ecossistema" das suas próprias empresas.
 
O Brasil  precisa, urgentemente, controlar a voracidade dos corruptos e puni-los, o que não será possível se não equipar e fortalecer as Instituições. Se não fizer isso, não haverá bolo para repartir, e, logo logo, poderemos ouvir falar em Primavera Brasileira, a exemplo do que está acontecendo na Europa.
 
Fica o alerta: Precisamos restaurar a nossa sustentabilidade moral para permitirmos o regresso dos investimentos e a admiração do mundo.

5 de jun. de 2012

Outono

Linda Tassitch

Não soube dizer quanto tempo estivera ali, na sala, confortavelmente sentada no sofá, pensando em tudo o que acontecera. Deixara-se levar pelas recordações, num mergulho profundo para dentro de si mesma. Nada sentia, apenas via como numa tela a sucessão de fatos, um após o outro, encadeando-se numa seqüência inexorável. Finita.

Com esforço saiu da modorra espreguiçando-se languidamente. Ainda como que num transe, olhou ao seu redor: tudo arrumado, em ordem, nada fora do lugar... “Irritante”, pensou. Levantou-se e começou a andar a esmo, olhando os objetos da decoração. Não havia um estilo próprio, mas a falta dele, em si mesma, era um estilo – e gostava disso, como gostava! Era um sopro de vida, de movimento a agitar a mesmice e a calmaria... Deu-se conta de que escutava uma música agradável, um solo de piano delicado, e balançou-se lentamente ao som, respirando o ar, sentindo-o percorrer todo o seu corpo. Sorriu para si mesma, feliz.

Chegou à janela e ficou um tempo observando a chuva fininha que caía o dia todo. A terra úmida, fértil e generosa. “Por demais!” – pensou. As ervas daninhas já cresciam viçosas no pequeno jardim e teria um trabalho cansativo, mas relaxante a fazer, assim que o sol voltasse a brilhar. As roseiras estavam lindas! Botões de todas as cores desabrochavam e ela lembrou-se de que aquela não era a época correta para isso. Estranho... nunca houvera nada muito temporal – a associação foi imediata. Uma leve tristeza assomou seu coração. Voltou-se para dentro da sala novamente, tentando não deixar que este sentimento se instalasse. Não! Voltou a dançar, erguendo os braços bem para o alto, rodopiando entre os espaços vazios, os olhos fechados.

Parou em frente a um dos seus quadros preferidos. Olhá-lo era agradável e lembrou-se de que fora o primeiro que havia adquirido. Fora em uma tarde ensolarada, na cidade. Vira-o exposto de qualquer jeito numa pequena vidraçaria de bairro, empoeirado, porém irradiando uma luz única. Entrou na loja acanhada, e num impulso o levou para casa. Agora ele ali estava, em um lugar de destaque na parede. Olhou-o demoradamente. Era um casario colonial – uma cidadezinha daquelas no fim do mundo, com a igrejinha dominando a cena, e a luz! A luz do sol se pondo, dourando o cenário.

Pensou que bem que poderia sair em férias, sem destino definido, visitando todas as vilas e aldeias pelo caminho. Mas... Isso teria de ficar para depois – quando, não sabia.

Um sentimento de solidão a invadiu, de súbito. Olhou para a janela e viu que o sol finalmente tentava sair de trás das nuvens naquele final de tarde. Abriu a porta e saiu... A luz dourava tudo, tudo tornando vivo e pulsante. Não pensou em mais nada, e mergulhou no turbilhão de luzes e cores, fazendo-se ela própria parte integrante daquele espetáculo. Respirou profundamente o ar puro. A vida continuava.

A Comissão da Verdade e a Tripartição de Poderes


Irineu Tolentino

A Tripartição de Poderes no Brasil, pode se tornar Hexa!

Desde que Montesquieu, inspirado em Locke, consagrou a Teoria da Tripartição dos Poderes, as Repúblicas Democráticas passaram a adotá-la, inclusive o Brasil; que dividiu o exercício do Poder em três: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Basicamente, era para ser assim. Mas, não faz muito tempo, criou-se  a tese de que o Ministério Público seria o quarto poder do Estado, uma vez que não estava subordinado funcionalmente a nenhum dos três (formalmente o MP está vinculado ao Poder Executivo, embora seus membros tenham "liberdade de convicção").

Mas, há ainda o caso da Imprensa. Embora ela não seja um órgão estatal, tem tanta influência nos assuntos do Estado que, segundo a visão de alguns, alçoou o status de mais um Poder. Comumente, diz-se que ela é o quarto, mas, se considerarmos o Ministério Público também como um dos Poderes, a Imprensa cederia seu quarto lugar para assumir o quinto (apenas para seguir a sequência, já que ela não é vinculada ao Estado).

Eu achei que já havia terminado. É muita gente mandando.

Porém, veio essa história de abertura dos arquivos da ditadura (desde a época da assunção do governo civil do Sarney que se fala nisso). Passou por Collor, Fernando Henrique, Lula, e agora, Dilma...É um tal de abre e não abre irritante.

O tempo foi passando e os militares resistindo. Ora dizem que não tem arquivos, ora que não se poderia abri-los sob pena de criar uma crise institucional.

Porém, Dilma - mais uma vez ela - destacando-se dos demais Presidentes, criou a Comissão Nacional da Verdade. No início, fiquei pensando: Meu Deus! O que será isso? O que fará uma "Comissão da Verdade"? Haverá uma espécie de bolsa-verdade para os menos favorecidos? Superada a estranheza inicial, pareceu-me uma boa ideia mesmo, já que, além de ter um efeito retórico positivo, teríamos um grupo formalmente investido nos poderes de investigação sobre o passado oficial.

Iniciados os trabalhos da Comissão, e instado o Ministro da Defesa sobre o assunto (Celso Amorim), ele disse que "todos os arquivo serão abertos", inclusive àqueles dos Centros de Informações do Exército (CIE), da Marinha (Cenimar) e da Aeronáutica (Cisa). Eu nem sabia que tinha esses Centros. Bastava falar que os arquivos da Marinha, Exército e Aeronáutica seriam abertos e pronto.

Apesar das declarações de Amorim, alguns integrantes da Comissão da Verdade não estão muito animados. Alegam que haverá resistência dos Militares.

Como sou ingênuo, fiquei pensando: Como assim haverá resistência dos Militares? Quem manda não é a Presidente?

Não posso crer que os militares se arriscarão a fazer isso. Até porque, a opinião pública não poderia condenar a Instituição Militar. Todos os países precisam de militares e terão militares (até o Vaticano tem). Quem faz besteiras são pessoas, não instituições (vide Igreja Católica e Inquisição).

Se realmente se confirmar essa resistência, ela dará à luz o sexto Poder: o Poder Militar. E, no fundo, quem não terá poder nenhum será o povo.

4 de jun. de 2012

Eleições Municipais e Meio Ambiente

Por um Brasil sem sujeira


Luiza Eluf *

O termo sujeira é amplo, pode-se entendê-lo como oposto de limpeza ou, em sentido figurado, pode se referir à corrupção, à malandragem, aos desvios de dinheiro público. Aqui, porém, será usado literalmente. Embora os problemas de sujeira no Brasil sejam muitos, é preciso escolher as prioridades. Falemos do tratamento de esgoto.

Bons ventos trazem o tema do saneamento básico à discussão, com uma intensidade nunca antes vista na história do país. Enfim, saímos do marasmo para enfrentar com maior determinação uma das necessidades mais prementes da nossa população. O momento também favorece a ampliação da discussão para que contemplemos as questões relacionadas ao meio ambiente diante do abismo de nossas desigualdades sociais, além do muito que falta fazer para alcançarmos a tão almejada sustentabilidade.